Comunicação e Liderança na série “The Crown”

É inegável que a realeza britânica ainda fascina e movimenta o noticiário internacional. Casamentos considerados modernos para os “padrões” reais, nascimentos de bebês, tours dos herdeiros do trono pelo mundo e fotos oficiais da família são os temas que mais causam comoção recentemente. Mas a rainha Elizabeth II tem ganhado a atenção entre os que assistem à série “The Crown” (com duas temporadas disponíveis no Netflix) por sua liderança, construída pouco a pouco em seu longevo reinado.

Nos primeiros capítulos da série, é difícil acreditar que Elizabeth, coroada aos 25 anos de idade, iria conseguir dialogar com líderes muito mais experientes e que a consideravam uma “menina”. É emblemática a cena em que a rainha se reúne pela primeira vez com Churchill, primeiro-ministro à época, em seu segundo mandato e já famoso estadista. Ela apenas sorri, mal fala. À medida que os acontecimentos e os anos se passam, esses encontros periódicos com Churchill e seus sucessores no cargo passam a ser realmente dialogados, o que mostra o protagonismo que a monarca assume com o tempo.

Considerando que, nessa época (mas não só), o universo político e institucional era eminentemente masculino, Elizabeth tem um desafio extra. Ser jovem, mulher, posicionar-se como líder, representar a coroa britânica, preservar seu legado, ser respeitada não apenas pelo cargo que ocupa, mas especialmente por suas competências diplomáticas e sua forma de lidar com as mais distintas e imprevistas situações. À sua maneira, ela se impõe, se posiciona e lidera, com acertos e equívocos, naturais a qualquer líder (especialmente a rainha, que detém o poder, mas esbarra em limites de atuação e em protocolos reais), agindo sempre em defesa da coroa, um valor fundamental para ela. Em um momento simbólico, Elizabeth, a contragosto de seus assessores e de seu marido, decide ir a Gana minimizar os conflitos com o líder do país, ex-colônia britânica, e dança com ele no jantar em sua homenagem, algo impensável à época. Um ato de personalidade que surtiu bom efeito para a imagem da realeza.

Uma das grandes demonstrações de sua liderança é a tentativa constante de aliar modernidade às tradições da monarquia. Sua coroação, em 1952, foi a primeira a ser televisionada, algo que quebrou o protocolo real, mas a aproximou de seus súditos; em 1957, seu discurso de Natal também foi televisionado, como uma forma de responder a duras críticas que a monarquia enfrentava; diversas sugestões de Lorde Altrincham, crítico do ostracismo da realeza e até do modo de falar da rainha, foram implantadas com a aprovação de Elizabeth, a fim de modernizar a realeza.

Em meio a tantos feitos, ainda restou à rainha lidar com os desafios do casamento com Philip e escândalos matrimoniais que colocavam a coroa em cheque, da criação dos filhos, herdeiros do trono, dos caprichos da irmã Margareth, que sempre alimentaram os tabloides britânicos.

 

Hoje, no alto de seus 83 anos, ela parece ser apenas uma figura simbólica da monarquia britânica, mas é sim uma das grandes mulheres do nosso tempo, líder emblemática, que enfrenta, ainda hoje, inúmeros desafios de manter a tradição real e dialogar com o mundo fora do palácio.

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About Vivian Rio Stella

Sócia-fundadora da VRS Cursos, Palestras e Coaching. Doutora em Linguística pela Unicamp, atua como professora e coach em diversas instituições de ensino e empresas.

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