Dica de leitura: O Frio aqui Fora

Dois acontecimentos recentes me motivaram a dar a dica de leitura de hoje: “O Frio aqui Fora”, de Flávio Cafiero. Nele, o autor faz um relato autobiográfico sobre um gerente de produto que se torna escritor (justamente o que Flávio fez).

Flavio Cafiero_o_frio_aqui_fora

O primeiro é que o “conheci” da minha aula de pilates. Numa conversa entre ele e a professora, ouvi que ele era escritor e, depois, perguntei a ela o nome dele. Não é sempre que se esbarra com um escritor… Ao saber que ele havia ganhado o prêmio Off Flip de Literatura e do que tratava o livro dele, achei que já valia a indicação. Ao saber da sua história, achei que valia ainda mais, justamente por tê-la associado ao segundo motivo da dica.

O segundo é que, depois de dar aula no MBA de Comunicação Corporativa da Aberje/Esag no sábado, notei quantos e quantos profissionais estão em busca de novos desafios e de um sentido para seu trabalho, mesmo tendo cargos estáveis em grandes empresas e serem reconhecidos por seus desempenhos. Muitos têm inúmeras ideias ou planos B,C, D, mas não sabem como começar a colocar em prática suas ações; outros não querem se comprometer a fazer escolhas, mas, ao mesmo tempo, se sentem insatisfeitos por não ter atitude de mudar; outros acham que está tarde demais para começar algo novo.

Flávio, por exemplo, decidiu sair da empresa onde trabalhava há mais de 10 anos para ser escritor, atividade que nem regulamentada como profissão é. Fico imaginando o que os ex-colegas de trabalho ou os amigos e familiares podem ter pensando: que loucura, deixar uma carreira como a dele para ser escritor! Não vai dar certo!

Para se capacitar, o autor fez uma oficina de escrita criativa com a reconhecida Noemi Jaffe. Outra atitude que muitos diriam: imagina, fazer um curso, não vai dar em nada, quem vai publicar seus livros?

Pois a mudança de carreira vem rendendo muitos frutos a Flávio. Ele já publicou outros livros e vem sendo reconhecido e premiado por seu estilo de escrita.

Para se inspirar a ler seu livro e, quem sabe, mudar os rumos da sua carreira, segue um trecho do livro “O Frio aqui fora” (disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/09/1347457-escritor-troca-o-mundo-corporativo-pela-literatura.shtml )

“E foi na cama que nasceu o apelido, numa dessas noites antes de o Pulga existir. Encerradas as trocas literárias e a sessão de ciências para iniciantes, ele brincava de esconder as mãos na manga longa, tatibitava como um bebezão, fazendo manha, daquele jeito íntimo e constrangedor com que casais com certo tempo de convivência se divertem. E lançava protestos à namorada, fingindo revolta contra o uniforme de dormir, como até hoje chama os pijamas. Por que forçar um homem a se vestir daquele jeito, me diga? E aposentar o short de náilon furado nos fundilhos? E a camiseta que a mãe trouxe de uma viagem, uma lembrança de não sei onde, lembrei de você, aquelas coisas agora tão formatadas ao corpo? E desfrutava das risadas arrancadas com números toscos de palhaço, quando ela chamou o namorado pelo nome do anão, aquele mudo e orelhudo dos contos de fada, sempre tropeçando nas mangas e atrapalhando a fila. E aglutinou o Dunga do anão no Guga do namorado, foi assim, meio ao acaso, e deu em Gunga, apelido exclusivo e intransferível. Gunga, Gunga, Gunga. Vem, Gunga. Cadê você que não chega, Gunga? E as poucas vezes que ouviu seu Gunga reproduzido na boca de outra censurou imediatamente, não: exclusividade dela, só ela poderia chamá-lo assim.

Foi quando parou para pensar nos nomes pela primeira vez, e percebeu que aquele Gunga o modificava de alguma forma. A senha, quando pronunciada, tinha o poder de libertá-lo de não sabe bem o quê, mas suspeita que seja do Palito, o aluno que não sabia jogar futebol nas aulas preguiçosas de educação física, ou do Cebola, com um redemoinho rebelde no cocuruto, o menino calado, tímido, ensimesmado, ou do Tavinho, com o nariz de batata apertado diariamente pela mão fedida a carne crua da cozinheira, ou mesmo do Gustavão, adolescente sem pai ou padrasto, buscando elogios onde eram raros, fosse nos professores da escola, onde nunca foi estudante brilhante, fosse nos colegas, que o chamavam de perna de pau, fosse onde fosse. Quem sabe estivesse se livrando. mesmo era do Guga, meu Guguinha, o filho que recebia broncas e censuras da mãe, amado e repreendido por quem tentava também ser pai, uma meia mãe desajeitada e com medo. Os elogios completos nunca vinham, dizem que elogio demais estraga, e os que escapavam da boca da mãe não encontravam ressonância, pareciam burocráticos, e faziam do Guga apenas um esforço materno à sombra de uma lacuna paterna, uma desmedida de compensações que fazia tudo oscilar entre a verdade e a mentira. A mãe, tentando deixá-lo livre e tentando não mimá-lo, fazia falta. Mas a mãe, cobrando tarefas com o chapéu de professora, rigorosa e atenta, era excesso, era demais para suportar. Como deve ser difícil ser mãe e pai ao mesmo tempo. E será que sou mesmo bonito? Esforçado o suficiente? Inteligente o bastante? É assim mesmo? Será que tudo em que era bom seria fruto do acaso e tudo de ruim obra de sua incompetência mais arraigada? E foi desse Guga emaranhado que nasceu o Luna, o Lunão, o gerente que chegou a nível dois, na onda das oportunidades, o das boas avaliações, competente, pontual, ágil, caprichoso, opinativo, e que nunca alcançaria o brilho fosco do nível três.”

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About Vivian Rio Stella

Sócia-fundadora da VRS Cursos, Palestras e Coaching. Doutora em Linguística pela Unicamp, atua como professora e coach em diversas instituições de ensino e empresas.

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